Mudanças climáticas, desastres naturais
e prevenção de riscos

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ciência & Tecnologia: Reciclagem de dióxido de carbono


A contribuição do excesso de emissão de dióxido de carbono (CO2) para as mudanças climáticas globais tem levado a comunidade científica a buscar formas mais eficientes para estocar e diminuir o lançamento do composto para a atmosfera.

Um novo estudo realizado por pesquisadores do Laboratório de Química Orgânica Fina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Presidente Prudente, abre a perspectiva de desenvolvimento de tecnologias que possibilitem capturar quimicamente o gás atmosférico e convertê-lo em produtos que possam ser utilizados pela indústria química para substituir reagentes altamente tóxicos utilizados hoje para fabricação de compostos orgânicos usados como pesticidas e fármacos.

Derivadas de um projeto de pesquisa apoiado pela FAPESP por meio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes, as descobertas do trabalho, intitulado “Estudo da fixação e ativação da molécula de dióxido de carbono com bases nitrogenadas”, foram publicadas na revista Green Chemistry, da The Royal Society of Chemistry.

O estudo demonstrou, pela primeira vez, que uma molécula, denominada DBN (uma base orgânica nitrogenada), é capaz de capturar dióxido de carbono, formando compostos (carbamatos) que podem liberar CO2 seletivamente a temperaturas moderadas. Dessa forma, a molécula poderá ser utilizada como modelo para pesquisas sobre a captura seletiva de dióxido de carbono de diversas misturas de gases.

“Essa descoberta abre perspectivas sobre como poderemos fazer com que o composto resultante da ligação da DBN com o dióxido de carbono se forme em maior quantidade. Para isso, temos que estudar possíveis modificações em moléculas que apresentem semelhanças estruturais e funcionais com a DBN para que o composto seja mais eficiente”, disse Eduardo René Pérez González, principal autor do estudo, à Agência FAPESP.

De acordo com o professor da Unesp, já se sabia que a DBN é capaz de capturar dióxido de carbono na presença de água. Por esse processo, a molécula retira um hidrogênio da água, ganha uma carga positiva (próton) e gera íons hidroxílicos (negativos) que atacam o dióxido de carbono, formando bicarbonatos.

Até então, entretanto, não se tinha demonstrado que o composto também é capaz de capturar CO2, formando carbamato, por meio de uma ligação nitrogênio-carbono tipo uretano, que tem relação direta com um processo biológico em que 10% do dióxido de carbono do organismo humano é transportado por moléculas nitrogenadas.

Em função disso, o processo também poderia ser utilizado para o tratamento de determinadas doenças relacionadas com a quantidade de CO2 e seu transporte no organismo.

“Essa descoberta nos leva a pensar que também poderíamos utilizar esse trabalho para fins bioquímicos, tentando, por exemplo, melhorar esse processo para tratamento de doenças relacionadas à concentração de dióxido de carbono nas células e alguns tecidos, como o pulmonar”, disse González.

Já na área industrial, os carbamatos – como, por exemplo, poliuretanas – derivados da captura de dióxido de carbono pela molécula DBN poderiam substituir tecnologias que utilizam reagentes altamente tóxicos, como o fosgênio, para preparação de compostos orgânicos usados como pesticidas e fármacos e em outras aplicações industriais.

“A possibilidade de se utilizar o dióxido de carbono para construir ou sintetizar moléculas que contêm o agrupamento carbonílico, sem a necessidade de se usar fosgênio ou isocianatos, representaria uma grande vantagem”, disse o pesquisador.

O artigo A comparative solid state 13C NMR and thermal study of CO2 capture by amidines PMDBD and DBN (doi: 10.1039/C1GC15457E), de González e outros, pode ser lido por assinantes da Green Chemistry em http://pubs.rsc.org/en/Content/ArticleLanding/2011/GC/c1gc15457e.

Fonte: Agência Fapesp.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Tudo pronto para a 3ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia em Uberlândia

Em sua terceira edição em Uberlândia, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia será realizada entre os dias 17 e 23 de outubro, com o tema: “Mudanças climáticas, desastres naturais e prevenção de riscos”. A cerimônia de abertura da Semana acontecerá no dia 17, às 9 horas, no anfiteatro A do bloco 5 O, no campus Santa Mônica da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com a presença do coordenador-geral do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), professor doutor Osvaldo Moraes. Em palestra, ele falará sobre a meteorologia e sua contribuição à prevenção de desastres naturais. O secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), doutor Ronaldo Mota, também estará presente na Semana participando da IV Semana da Física e marcando a inauguração do novo espaço do Museu Diversão com Ciência e Arte (Dica), da UFU. A partir das 21 horas do dia 17, no anfiteatro do bloco 5 O da UFU, Mota abordará o papel da inovação na sociedade contemporânea.

De acordo com a coordenadora do evento em Uberlândia, professora Sílvia Martins, a programação da Semana não se restringe ao tema central, envolvendo todas as áreas do conhecimento. “A proposta é que a ciência, a tecnologia e todas as atividades sejam apresentadas de forma interativa, para que a sociedade tenha acesso a esse conhecimento, associando-o ao seu dia a dia”, observa. Durante o evento, está prevista a realização de palestras, oficinas, visitas técnicas, feira Ciência Viva, ciência no parque e apresentações culturais. Paralelamente, acontecerão, além da IV Semana da Física, a Semana de Iniciação Científica da UFU, a IV Semana Multidisciplinar do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro (IFTM) e as feiras de ciências nas escolas.

A Semana contará com a participação do Batalhão do Corpo de Bombeiros de Uberlândia e da Polícia Militar, do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e da Cemig, que promoverão, respectivamente, atividades interativas sobre prevenção de riscos, uso consciente de recursos hídricos e energia elétrica.

As atividades da Semana são gratuitas e toda a população poderá participar. Segue anexo com os destaques da Semana. A programação geral do evento pode ser conferida no endereço eletrônico: http://sctuberlandia.blogspot.com/.

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia é promovida anualmente em todo o país, desde 2004, sob a coordenação do MCTI. Em Uberlândia, a Semana foi lançada em 2009, por iniciativa da Diretoria de Comunicação Social da UFU e do Museu Dica, envolvendo instituições públicas e particulares da cidade. Neste ano, a Semana é uma realização da UFU, da Prefeitura Municipal de Uberlândia (PMU) e do IFTM, e conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), da Fundação de Apoio Universitário (FAU), da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg - Regional Vale Paranaíba) e da Associação Comercial e Industrial de Uberlândia (Aciub).

Em 2010, a cidade de Uberlândia liderou a maior mobilização do Estado de Minas Gerais, com a realização de 467 atividades, ocupando o terceiro lugar entre os municípios brasileiros, segundo registros do MCTI. As atividades estão divulgadas na revista relatório disponível no endereço:
http://www.dica.infis.ufu.br/sites/dica.infis.ufu.br/files/Anexos/Bookpage/RevistaUFU_SNCT2010.pdf

Mais informações com a professora Sílvia Martins, pelos telefones (34) 3239-4190 e (34) 3230-9517.

Museu Diversão com Ciência e Arte
Instituto de Física
Universidade Federal de Uberlândia
Telefone: (34) 3230-9517
E-mail: dicacomunica@infis.ufu.br

Ciência: Aves imunizadas


Uma técnica desenvolvida em 1998 pelos cientistas norte-americanos Andrew Z. Fire e Craig C. Mello para controlar a expressão de genes, testada por uma pesquisadora brasileira na avicultura, pode auxiliar no controle de um dos principais vírus causadores de doenças respiratórias virais, que representam hoje as maiores fontes de prejuízos ao setor avícola.

Denominada “interferência por RNA”, a técnica, que rendeu o prêmio Nobel de Medicina de 2006 a Fire e Mello, possibilitou o estudo das funções de genes específicos e pode ajudar a desenvolver tratamentos para uma série de doenças genéticas.

A dupla percebeu que, ao introduzir nos órgãos reprodutivos do verme Caenorhabditis elegans moléculas de RNA correspondente a uma determinada proteína muscular do artrópode, seus descendentes se contorciam de maneira peculiar. E esse mesmo movimento era observado em vermes modificados geneticamente para não ter o gene que sintetiza a proteína.

Por meio desse experimento, os cientistas concluíram que as moléculas de RNA eram capazes de inativar o gene do verme, inibindo a produção da proteína responsável pela produção de um músculo dele, sem alterar diretamente seu DNA.

Entre 2004 a 2007, durante seu doutorado, realizado no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com Bolsa da FAPESP, a pesquisadora Helena Lage Ferreira decidiu verificar se a técnica também era capaz de inibir a replicação do metapneumovírus aviário (AMPV) – o agente primário da rinotraqueíte de perus e associado à síndrome da cabeça inchada em frangos e galinhas, que é uma doença altamente contagiosa.

Introduzindo moléculas de RNA em regiões alvo do genoma do AMPV nas células de aves infectadas, a pesquisadora observou que a técnica também foi capaz de inibir em quase 100% a replicação do vírus.

“Até então essa técnica tinha sido aplicada para inibir apenas vírus humanos, e depois desse trabalho, surgiram vários outros aplicando a mesma tecnologia para impedir a replicação de vírus aviários”, disse Lage durante a conferência que proferiu durante o Simpósio Científico sobre Defesa Sanitária Animal e Vegetal, promovido em setembro pela FAPESP e pela Fundação Bunge.

A pesquisadora foi contemplada com o Prêmio Fundação Bunge 2011, no tema “Defesa Sanitária Animal e Vegetal”, na categoria Juventude (direcionada a pesquisadores com até 35 anos de idade), por suas pesquisas sobre doenças respiratórias aviárias.

Apesar dos bons resultados obtidos com a utilização da técnica na avicultura, ela ainda não está sendo usada no setor devido ao seu alto custo. Mas, em contrapartida, está sendo estudada para inibir a replicação do metapneumovírus humano, que é do mesmo gênero do aviário.

“Essas moléculas de RNA ainda não estão sendo comercializadas, porque representam uma tecnologia nova. Mas já estão em fase experimental e em breve deverão chegar às farmácias para o tratamento de doenças respiratórias em humanos”, disse Lage.

Tropismo viral

Segundo a cientista, as doenças respiratórias virais representam hoje alguns dos principais problemas para a avicultura brasileira, que ocupa o terceiro lugar na produção mundial.

Entre os principais vírus causadores dessas doenças são o da laringotraqueíte infecciosa, o metapneumovírus aviário, o vírus da bronquite infecciosa, a influenza aviária e da doença de Newcastle, que representam as maiores fontes de prejuízos ao setor.

Encontrados em aves silvestres (exceto o vírus da laringotraqueíte infecciosa), as quais normalmente não apresentam os problemas respiratórios causados por eles, esses vírus são propagados pelas aves comerciais e podem exterminar um plantel.

Para combater esses vírus, atualmente os criadores de galinhas e perus utilizam vacinas de origem europeia ou norte-americana. Mas, de acordo com a pesquisadora, é preciso verificar se essas vacinas realmente combatem os vírus de campo “brasileiros”.

“É preciso estudar os limites dos programas de vacinação contra vírus de doenças respiratórias aviárias no Brasil, porque o tropismo viral – propensão que um vírus tem em infectar um determinado tipo de célula ou tecido – pode não ser o mesmo dos vírus combatidos pelas vacinas importadas de empresas multinacionais”, disse.

Além disso, de acordo com Lage, é preciso verificar a eficácia dessas vacinas, que devem ser capazes de inibir tanto a infecção como a excreção viral, para evitar a contaminação dos ambientes de criação, e tentar estabelecer uma correlação da proteção com a resposta sorológica para certificar se as aves estão sendo bem vacinadas.

Fonte: Agência Fapesp.

domingo, 2 de outubro de 2011

Ciência: Dormir mais cedo ajuda crianças a manter a forma, diz estudo

Notívagos têm 1,5 vez mais chance de se tornarem obesos; trabalho foi feito com 2 mil crianças entre 9 e 16 anos na Austrália

Um estudo feito com crianças na Austrália mostra que dormir cedo ajuda a manter a forma e a disposição. O trabalho foi feito com a participação de 2 mil jovens entre 9 até 16 anos, que foram acompanhados durante quatro dias por cientistas da Universidade da Austrália do Sul.

Publicada na revista científica "Sleep", a pesquisa comparou o peso das crianças e como elas usavam o tempo livre. Separadas em grupos que dormiam cedo ou tarde, os jovens que foram para a cama de madrugada aumentaram em 1,5 vez a chance de virarem obesos.

Quem dormiu e acordou cedo também tinha vantagem no controle do peso. Os notívagos tinham o dobro de chance de ficarem parados, sem fazer atividade física, e eram 2,9 vezes mais propensos a passar mais tempo que o recomendado na frente da TV, do videogame e do computador.

A diferença nos horários de sono foi de 70 a 90 minutos. Os garotos que dormiram mais cedo acordaram entre 60 a 80 minutos antes do que os demais. As crianças que foram para a cama mais tarde também ficaram mais tempo jogando e vendo TV, especialmente entre as 19 horas até a meia-noite.

Para os cientistas australianos, a descoberta mais importante do estudo foi mostrar que a saúde das crianças depende mais da hora em que vão dormir do que se elas dormem muitas horas ou não.

Mesmo adolescentes podem se beneficiar caso durmam mais cedo, segundo os autores da pesquisa. Para Carol Maher, uma dos participantes do trabalho, a tendência que jovens têm a dormir tarde pode ser um alerta. O cientista destaca que atividades físicas são mais fáceis de serem feitas por garotos durante as manhãs.

A pesquisa ainda descobriu que jovens notívagos tendem a viver em grandes cidades, têm menos irmãos e vêm de famílias com renda mais baixa.

Fonte: pe360graus.

sábado, 1 de outubro de 2011

Ciência: Rios de lava formaram planícies de Mercúrio, revela Nasa


Esta imagem obtida pela Messenger mostra a Bacia do Goethe no Pólo Norte de Mercúrio. A imagem foi uma das primeiras enviadas pela sonda. Foto: Nasa/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington/AFP

Fendas vulcânicas se abriram há bilhões de anos em Mercúrio, o planeta mais próximo do sol, e liberaram a lava que formou suas planícies suaves, informou um estudo publicado na edição desta quinta-feira da revista Science e que descreve as descobertas de uma sonda da Nasa que orbita o astro desde março.

Entre 3,5 e 4 bilhões de anos atrás, fendas vulcânicas se abriram na crosta de Mercúrio e expeliram lava, formando as planícies que ocupam 6% do planeta pequeno e quente e que cobrem uma superfície equivalente a 60% dos Estados Unidos, segundo o estudo publicado na revista Science.

Uma série de informes divulgados na revista descrevem as descobertas da sonda Messenger, da agência espacial americana (a Nasa), desde que começou a orbitar Mercúrio, em meados de março. As fendas que derramaram lava não eram como os vulcões de montanha, que se formam gradualmente ao longo do tempo, como os do Havaí, por exemplo, mas profundos cortes que expulsaram rios de lava incandescente que em alguns lugares fluíam a até dois quilômetros de profundidade.

"Estes enormes respiradores, de até 25 km de comprimento, parecem ser a fonte de enormes volumes de lava muito quente que saíram para a superfície de Mercúrio", disse um dos autores do estudo, James Head, professor de Ciências Geológicas da Universidade Brown, na costa leste dos Estados Unidos.

Os fluxos de lava foram para a superfície, "talhando vales e criando crostas em forma de lágrima no terreno subjacente", disse Head. "Um destes depósitos é tão enorme que o vulcanismo tem que ser importante em outros lugares", explicou.

Os vulcões contribuíram para a formação dos planetas, inclusive Marte, e ajudam estes corpos celestes a liberar seu calor interno. Na Terra, erupções vulcânicas similares formaram o terreno ao longo do rio Columbia nos estados de Washington e Oregon, no noroeste dos Estados Unidos, de 12 a 17 milhões de anos, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

Messenger
Os cientistas vislumbraram algo na superfície de Mercúrio a partir de um trio de sobrevoos do Messenger. A sonda foi lançada em 2004 e entrou na órbita de Mercúrio em 18 de março. A sonda Mariner 10 foi a primeira a se aproximar de Mercúrio em 1974 e em 1975 e fazer um mapa de 45% da superfície do planeta.

A Nasa espera que a Messenger lance mais luz sobre a composição da superfície de Mercúrio enquanto orbita o planeta a cada 12 horas a uma altura mínima de 200 km. Os instrumentos da sonda Messenger também mostraram que Mercúrio é varrido por ventos solares.

Mercúrio
Mercúrio não tem atmosfera, o que significa que pode chegar a temperaturas de 430ºC, mas também perder todo o calor quando se distancia do Sol, atingindo os -170º C. O pequeno planeta é o único, além da Terra, que tem um campo magnético ao seu redor, mas Mercúrio não gera o mesmo escudo resistente contra a radiação solar.

"Nossos resultados indicam que a frágil magnetosfera de Mercúrio oferece muito pouca proteção do planeta frente aos ventos solares", disse outro dos autores do estudo, Thomas Zurbuchen, professor da Universidade de Michigan (norte).

Mercúrio, cujo nome provém do deus romano mensageiro, tem muitas crateras que fazem com que sua superfície se assemelhe à lua. O menor dos oito planetas do Sistema Solar é cerca de um terço do tamanho da Terra, quase tão denso e orbita ao redor do sol aproximadamente a cada 88 dias terrestres.

Fonte: Portal Terra.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ciência: O bocejo é mais do que um sinal de sonolência ou tédio. É uma forma de resfriar o cérebro.


* Ricardo Teixeira

O bocejo é mais do que um sinal de sonolência ou tédio. É uma forma de resfriar o cérebro.O bocejo pode ser observado em todas as cinco classes de vertebrados, o que sugere que deva existir uma função adaptativa para esse fenômeno. Uma das formas de explicar o bocejo e seu caráter contagiante é a sua utilidade do ponto de vista social, com o potencial de sincronizar o conhecimento de um mau estado da mente ou do corpo num grupo de pessoas.

Apesar da existência de inúmeras outras teorias que tentam explicar a razão biológica do bocejo, pouquíssimos estudos experimentais foram realizados para avançar esse conhecimento. Recentemente, uma pesquisa publicada pelo periódico Frontiers in Evolutionary Neuroscience apontou que o bocejo é mais frequente em épocas do ano em que a temperatura do ambiente é menor que a do corpo, sugerindo que ele serve literalmente para esfriar a cabeça. A temperatura habitual do cérebro é de 37º C com flutuações de 0,5º C.

Os pesquisadores avaliaram a frequência de bocejo de 160 norte-americanos do Arizona ao serem apresentados a imagens de gente bocejando, já que o bocejo tem o seu componente contagioso. Os resultados mostraram que no inverno as pessoas bocejam mais e isso independe de outros fatores, como umidade e tempo de sono na noite anterior. Quase metade dos voluntários do estudo bocejou durante o teste no inverno (temperatura média: 22º C) enquanto no verão (temperatura média: 37º C) a frequência foi de apenas um quarto. Além disso, no verão, a frequência de bocejo foi menor à medida que se ficava mais tempo em ambiente externo. Este efeito da temperatura ambiente já havia sido demonstrado entre pássaros e macacos.

Um dos pesquisadores da atual pesquisa já havia publicado, em 2010, resultados revelando que o bocejo e o espreguiçar de um ratinho são desencadeados por aumento na temperatura do cérebro, que por sua vez diminui logo após a realização de cada um dessas duas ações. O efeito de resfriamento do bocejo seria o resultado de uma maior troca de calor com o ambiente através das vias aéreas e até mesmo pelo ato de se espreguiçar. Essa troca de calor também é favorecida pela abertura da mandíbula e o consequente aumento do fluxo sanguíneo cerebral. Esses resultados apoiam a ideia de que uma disfunção da regulação térmica do corpo represente a principal explicação para os bocejos excessivos que podem acompanhar alguns transtornos neurológicos como a esclerose múltilpa.

Há evidências também de que o bocejo facilita a ativação do córtex cerebral em situações de transição de estado, como por exemplo, do sono para a vigília. Em animais, já foi demonstrado que o bocejo ocorre com maior frequência na antecipação de eventos estressantes e em mudanças súbitas de um estado de alto grau de atividade para a calmaria. Entretanto, o mais provável é que o resfriamento cerebral seja a forma pela qual o bocejo colabore para a modulação cerebral nessas situações.

* Ricardo Teixeira é doutor em Neurologia e pesquisador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Dirige o Instituto do Cérebro de Brasília.

Fonte: Envolverde.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Crônica: Os 4 Is da Inovação!

* Sérgio Mascarenhas

O mecanismo do processo inovativo tem uma estrutura que está ligada à dinâmica do funcionamento da própria Inovação. É o que procuraremos discutir nesta crônica. Em primeiro lugar, chamamos atenção para a conceituação que todos os sistemas, por mais complexos que sejam, terão sempre duas grandes sub-estruturas: Sua Anatomia e sua Fisiologia. Usando o conceito de que todos os processos podem sempre ser bio-modelados, essa divisão é obvia. Chegados a essa rota conceitual é obrigatória a introdução da Evolução como um processo vinculado necessariamente ao modelo epistemológico a ser introduzido para discussão da Inovação até aqui.

O cenário nos parece bem construído, mas surgem de imediato as questões mais duras e difíceis: como fazer essa análise tanto da Anatomia como da Fisiologia da Inovação? Minha proposta: a própria Anatomia requer e induz uma Fisiologia! Parece uma resposta tautológica? Mostrarei que não, de uma maneira muito simples: usando uma metáfora linguística. A estrutura compõe-se de quatro letras iguais conotando ao mesmo tempo a Anatomia e a Fisiologia. Tomo quatro letras I maiúsculas indicativas dos seguintes processos: I de Invenção; I de Imitação; I de Interdisciplinaridade e I de Imperfeição.

Essa estrutura (Anatômia) contem interações que são a própria (Fisiologia) subjacente ao processo global da Inovação! E contém forçosamente também a natureza evolutiva da Inovação. Invenção é o primeiro salto para o Universo Inovativo. Pensem num feto humano, por exemplo. Constituído o embrião, ele se reinventa continuamente apesar de altamente vinculado pela sua genômica, mas esta, também através de interações com o ambiente externo, recebe continuamente estresses evolutivos e cria-se um sinergismo evolutivo.

Imitação é fundamental como uma fonte de conhecimentos e informações muito econômicas, sob o ponto de vista de gasto energético, isso é, da termodinâmica do processo de aprendizagem e aquisição de conhecimentos que o alimentam. Todos nós sabemos da sociologia a tremenda importância da Imitação no processo evolutivo. Mas as várias fontes disponíveis de informação e conhecimentos exigem que a diversidade dessas mesmas fontes ocasionem vantagens comparativas entre os processos evolutivos: quanto mais ricas as disciplinas, áreas, fontes de conhecimento, sua Interdisciplinaridade, maior será tanto a taxa como a quantidade e mesmo a qualidade da Inovação!

Chegamos agora ao que considero o componente mais importante dos Is: o que está ligado à Imperfeição. É esse fundamental elemento que introduz a Complexidade nos sistemas inovativos! Suas bifurcações conduzem a processos de enorme não-linearidade através das incertezas inerentes à sua própria natureza intrínseca e isso leva à Complexidade conceito fundamental que afeta tanto a Anatomia como a Fisiologia obrigando-as a varrer o espaço das fases das suas configurações em um riquíssimo processo espaço-temporal.

As inovações funcionam como atratores-caóticos das quais o próprio sistema pode gerar novas inovações! A perfeição é estagnante, mas a Imperfeição gera novas trajetórias continuamente. O mundo das incertezas é o mais rico e inovativo dos disponíveis para qualquer sistema, seja um grupo social, uma estrutura econômico-financeira ou qualquer outro sistema material. Faço então uma paráfrase à Descartes: Erro logo Existo!

* Sérgio Mascarenhas é professor e coordenador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP).

Fonte: Jornal da Ciência.



 
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