Mudanças climáticas, desastres naturais
e prevenção de riscos

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pesquisa avança conhecimento sobre relação entre alterações epigenéticas, estresse oxidativo e melanoma

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) tem obtido, nos últimos anos, resultados importantes para o avanço do conhecimento sobre a relação entre alterações epigenéticas, estresse oxidativo e o desenvolvimento de tumores – em especial o melanoma, o mais grave tipo de câncer de pele.

A epigenética é o estudo da parcela do genoma que não codifica proteínas, mas que tem papel na regulação dos genes. O estresse oxidativo é o resultado do excesso de produção de radicais livres, que reduz a capacidade do sistema antioxidante presente em cada tecido.

O grupo trabalha há cerca de uma década com a biologia celular do câncer, sob a liderança da professora Miriam Galvonas Jasiulionis, do Departamento de Farmacologia. Os estudos têm usado um modelo de transformação do melanócito – célula que produz a substância pigmentar da pele – em melanoma.

“O modelo consiste em submeter a condições sustentadas de estresse uma linhagem de melanócitos que não são tumorais, a fim de observar suas mudanças morfológicas até que se transformem em melanoma. Assim, observamos como as transformações ocorrem apenas a partir da alteração das condições ambientais, sem a introdução de oncogenes”, disse Jasiulionis à Agência FAPESP.

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O principal fator de risco para o melanoma é a exposição prolongada aos raios ultravioleta, que causa uma condição de estresse oxidativo. Por isso é usado o modelo no qual o melanócito não tumorigênico é submetido a vários ciclos de estresse, adquirindo progressivas alterações celulares.

O modelo usa tanto linhagens de melanoma metastáticos como não-metastáticos, ampliando as possibilidades de estudos. O estresse é provocado pelo bloqueio da adesão celular do melanócito.

“O modelo que utilizamos permite estudar uma série de aspectos, em especial as alterações epigenéticas, que estão relacionadas às alterações ambientais. Sabemos também que as condições crônicas de estresse oxidativo estão relacionadas ao aparecimento de diferentes patologias. Por isso, o modelo poderá servir também para outros casos além do melanoma”, destacou.

Em uma das vertentes dos estudos, os pesquisadores investigaram a conexão entre o melanoma e o papel dos micro-RNA (miRNA). Essas pequenas moléculas de apenas duas dezenas de nucleotídeos não codificam proteínas, mas se ligam ao RNA mensageiro (RNA-m), perturbando sua estabilidade, interrompendo o processo de tradução da informação gênica em estruturas proteicas e agindo como elementos de regulação epigenética.

Em coautoria com sua orientanda de doutorado Adriana Taveira da Cruz, Jasiulionis publicou na revista Dermatology Research and Practice – com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações – um artigo de revisão a respeito dos últimos avanços do conhecimento sobre a relação entre miRNA e melanoma.

Com o tema “Identificação de miRNAs envolvidos com a gênese do melanoma e a possível regulação epigenética de sua expressão”, o doutorado de Cruz conta com Bolsa da FAPESP.

Jasiulionis coordena o projeto “Mecanismos epigenéticos como mediadores da transformação maligna de melanócitos associada a condições sustentadas de estresse”, apoiado pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular.

“Embora não seja o foco principal do nosso grupo, o estudo dos miRNAs é importante, porque eles são um importante mecanismo de controle da expressão e, para nossas pesquisas, é fundamental compreender como se dá a regulação epigenética da expressão dos miRNAs”, explicou Jasiulionis.

No artigo, as pesquisadoras fizeram um levantamento dos miRNAs existentes relacionados ao melanoma. Por impedir a tradução de RNA-m, segundo Jasiulionis, o miRNA tem um papel central no processo de formação do câncer.

“Sabemos que os miRNAs têm alterações em sua expressão nos tumores, o que leva a mudanças em diferentes RNA-m. Estamos tentando identificar não apenas miRNAs que estejam expressos nas diferentes etapas da gênese do melanoma, mas também os que têm expressão alteradas por possuírem marcas epigenéticas alteradas”, disse.

Além de ser um mecanismo importante no controle da tradução dos RNA-m, os miRNAs também podem ser utilizados como biomarcadores e podem se tornar alvos para o desenvolvimento de novas terapias contra o melanoma.

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“Cada miRNA tem como alvo diferentes RNA-m ao mesmo tempo. E o mesmo RNA-m pode ser alvejado por diferentes miRNAs. Uma das perspectivas para o futuro é identificar um miRNA relacionado com os genes dos tumores e desenvolver antagonistas a partir daí”, disse Jasiulionis.

Segundo a pesquisadora, o melanoma, que tem origem em uma transformação maligna dos melanócitos, é extremamente resistente às terapias quando entra em fase de metástase.

“Quando é diagnosticado precocemente, o melanoma é facilmente tratado. Mas em fase metastática, é extremamente agressivo e não responde às terapias que existem. Por isso, é importante identificar os miRNAs envolvidos no processo, não apenas para o tratamento, mas também para identificação do tumor”, disse.

O artigo miRNAs and Melanoma: How Are They Connected?, de Adriana Taveira da Cruz e Miriam Galvonas Jasiulionis, pode ser lido por assinantes da Dermatology Research and Practice em www.hindawi.com/journals/drp/2012/528345/abs.

Fonte: Agência Fapesp.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vítimas da mudança climática exigem ações urgentes

A bengali Mosammet Monwara é obrigada a caminhar mais de três quilômetros por dia em busca de água potável, que carrega em um pesado cântaro de barro, para sua família de cinco pessoas. A acompanham várias mulheres da aldeia de Sharmongolia, no distrito de Rajshahi, em Bangladesh. Monwara, de 37 anos, e suas vizinhas percorrem longas distâncias para encontrar água potável há mais de uma década, porque secaram os poços que costumavam utilizar. “Racionamos a água potável. Nos banhamos uma vez por semana e limpamos a cozinha o mínimo, tudo para economizar”, disse Monwara à concorrida audiência reunida no clube de imprensa em Daca, para uma das sessões dos tribunais climáticos, realizada em outubro.

Várias mulheres de outras regiões do país contaram experiências semelhantes no tribunal organizado pela organização não governamental Bangladesh Unnayan Parishad, pelo People’s Forum on the Millennium Development Goals (Fórum Popular sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio) e o Chamado Mundial de Ação contra a Pobreza.

“Perdi minha casa na beira do Rio Tista quatro vezes nos últimos cinco anos por causa da erosão”, contou Rubina Akhtar, da aldeia de Char Mornia, na subdivisão de Gangachara no distrito de Rangpur. “Durante a última temporada das monções, quando estávamos nos instalando em um novo lugar, longe do dique, a erosão levou tudo, inclusive nossa embarcação de pesca”, acrescentou. “Agora, vivemos ao ar livre perto de uma fazenda de gado”, disse Akhtar, de 25 anos. “Comemos quando alguém é generoso”, disse a mulher, com quatro filhos pequenos. Seu marido era pescador e ganhava o equivalente a US$ 5 por semana, mas começou a mendigar após perder o barco e os pertences familiares.

Dipali Mandal vive na aldeia Jatindranagar, no distrito de Satkhira, vizinho da maior floresta de mangues do mundo, Sundarbans. “Meu marido ganhava bem com cultivos de época. Éramos uma família feliz com renda entre US$ 400 e US$ 500 por temporada” de quatro meses, contou esta mulher de 42 anos. “Mas os solos salinos nos deixaram sem um centavo”, lamentou. “Os agricultores como meu marido já não podem trabalhar a terra por causa da salinidade do solo. Antes não era assim. De fato, no inverno cultivavam verduras para vender nas grandes cidades, como Daca, Khulna e Rajshahi, para aumentar a renda”, contou Mandal.

Bobita Begum, da aldeia Hatgacha, no distrito de Sirajganj, sofreu uma experiência angustiante. “Por 11 vezes perdi meus pertences. A primeira vez vivia com meus pais. Quando casei e mudei com meu marido pensei estar a salvo da erosão”, contou Begum, de 26 anos. “No ano passado, perdi meu filho durante uma repentina erosão do rio ocorrida à noite. Não houve escapatória”, acrescentou.

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A topografia deltaica de Bangladesh, com prolongadas secas no noroeste e frequentes erosões e transbordamentos de rios, está em um ponto no qual não pode abrigar seus 135 milhões de habitantes. A densidade populacional é de 1.100 pessoas por quilômetro quadrado. Projeções do Grupo Intergovernamental de Especialistas em Mudança Climática (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), dizem que 17% do país poderá ficar submerso até 2050, com vários milhões de pessoas obrigadas a abandonar a zona costeira. Os milhares de quilômetros de Barind, no norte do país, antes plantação de árvores frutíferas com diversidade de cultivos, agora são terras estéreis.

“Houve uma época, os empresários de Daca nos pagavam a produção de arroz adiantada. Fornecíamos toneladas de grãos de boa qualidade para muitas cidades”, contou Kwaza Nizamuddin, que emigrou para a capital há 15 anos em busca de um emprego alternativo. Estudos da Corporação de Desenvolvimento Agrícola de Bangladesh revelam que 400 mil bombas de água para irrigação, a maioria no noroeste do país, secaram pela diminuição da água subterrânea.

As intensas inundações e a erosão fluvial, as prolongadas secas, as chuvas incessantes e os níveis de salinidade extremos obrigaram milhões de pessoas a emigrar em busca de uma vida melhor. Os mais prejudicados são os agricultores e pescadores. Mais de 200 rios que cortam o país sofreram graves processos de sedimentação e formaram vastas extensões de terras estéreis. As pessoas que constroem suas casas, a maioria de bambu, perde tudo quando as regiões que foram leitos fluviais inundam.

“É hora de agir. Já esperamos muito. As vítimas necessitam de proteção, emprego e apoio. São ignorados muitos assuntos importantes”, disse à IPS o ativista Abdul Awal, um dos organizadores do tribunal. As mulheres têm uma longa lista de reclamações sobre proteção em casos de inundações, erosão do rio e ciclones, acesso a água potável, reflorestamento, reparo de estradas, abrigos para quando há desastres, créditos sem juros, centros de saúde e educativos em áreas de difícil acesso e compromisso político para o desenvolvimento.

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Qazi Kholiquzzaman Ahmad, integrante do IPCC e presidente-fundador da organização Bangladesh Unnayan Parishad, disse à IPS que as nações industrializadas “são responsáveis pela mudança climática. Além de compensação econômica, pedimos a elas tecnologia e apoio para construir capacidades e reduzir nossa vulnerabilidade. Nossa proposta contempla reduzir as emissões de dióxido de carbono em 40% até 2020 e 95% até 2050”, acrescentou.

Bangladesh já tem um plano de ação para reduzir a vulnerabilidade diante de desastres naturais, mas é preciso intervenção internacional, alertou Kholiquzzaman, que presidiu como convidado o tribunal climático de Daca. “O governo destinou US$ 90 milhões ao ano, nos próximos três, para minimizar os efeitos do aquecimento global no país, o que demonstra compromisso público e seriedade”, ressaltou. O júri, integrado por um ex-presidente de um tribunal de justiça, conhecidos ativistas de direitos humanos e voluntários de organizações da sociedade civil, pediu a criação de um tribunal internacional para que haja justiça para as vítimas da mudança climática.

Fonte: Envolverde.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Lixo eletrônico vira terra-rara

Uma pesquisa realizada no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) sobre o reprocessamento de ímãs de neodímio-ferro-boro (NdFeB) abre caminho para o descarte sustentável dos ímãs contidos nos discos rígidos de computadores fora de uso e para o desenvolvimento de tecnologias da cadeia produtiva de terras-raras.

Terras-raras compõem um grupo de 17 elementos químicos – entre os quais cério, praseodímio, térbio e neodímio – com aplicações diversas, como na produção de supercondutores, catalisadores e componentes para carros híbridos.

Realizada com bolsa da FAPESP durante o projeto, a pesquisa de Elio Alberto Périgo empregou uma série de ímãs sinterizados disponíveis comercialmente no mercado.

Segundo ele, a categoria de ímãs é a mais adequada para aplicações que demandem propriedades mais restritivas, como o uso em produtos tecnológicos de alto desempenho, e de maior valor agregado em relação aos ímãs aglomerados, que combinam material particulado e resina e têm propriedades magnéticas menores.

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Périgo buscou comprovar a possibilidade de reprocessar o neodímio-ferro-boro e alcançar propriedades superiores às das ferrites, usadas atualmente para a produção dos tipos mais simples de ímãs.

“É o material de menor custo disponível no mercado, mas suas propriedades são relativamente baixas. A aplicação ocorre quando as propriedades magnéticas não são restritivas, como pequenos motores elétricos e alto-falantes”, disse.

Para avançar na tentativa de reciclar compostos sinterizados de NdFeB para fabricar novos ímãs e manter as características originais, o pesquisador realizou o estudo por meio do processo HDDR. A técnica combina as etapas de hidrogenação, desproporção (transformação da fase magneticamente dura em outras fases), dessorção (retirada de hidrogênio da estrutura cristalina do composto previamente hidrogenado) e recombinação (obtenção da fase magneticamente dura com tamanho de grão inferior ao inicial) em ligas à base de neodímio-ferro-boro.

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A pesquisa indicou a possibilidade do emprego do material reprocessado em aplicações nas quais é preciso elevada resistência à desmagnetização. E resultou no depósito de uma patente, tendo como titulares Périgo, o IPT, a FAPESP e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), no qual o pesquisador realizou seu doutorado, também com Bolsa da FAPESP.

De acordo com o IPT, embora o material empregado nos ensaios fosse proveniente de ímãs comerciais, o estudo mostrou a viabilidade de extrapolar os dados obtidos para o reaproveitamento dos ímãs contidos em discos rígidos.

Segundo Périgo, os compostos de neodímio-ferro-boro encontrados nos dois produtos têm vários pontos em comum, como não poderem ser expostos ao ar para evitar a oxidação e a perda de propriedades ou pequenas variações de composição, que implicariam poucas alterações nas condições de temperatura e pressão para o processamento.

Para o pesquisador, o aproveitamento dos materiais magnéticos é uma alternativa para fomentar o mercado nacional de reciclagem do lixo eletrônico. Em cada disco rígido, são encontrados cerca de 30 gramas de material magnético, o que configura uma grande oportunidade para a destinação sustentável de computadores antigos.

“Quando o consumidor troca o computador, ele descarta o equipamento porque busca uma maior capacidade de processamento, por exemplo, e não porque o ímã parou de funcionar”, explicou. “O material magnético continua operante e nas mesmas condições da época em que o computador foi comprado.”

A fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho é possível somente com o emprego das terras-raras, o grupo no qual está presente o neodímio. O mercado é atualmente dominado pela China, mas as recentes reduções nas quantidades de materiais que o país pode exportar aumentaram as dúvidas pela continuidade do abastecimento e impulsionaram projetos de desenvolvimento de empreendimentos de mineração em todo o mundo, principalmente no Canadá e na Austrália.

“Recentemente, o preço desses elementos subiu de forma abrupta, e no Brasil quem utiliza ímãs em compressores, motores e a indústria eletroeletrônica precisam importar esses materiais, já que não existem substitutos nacionais”, disse Périgo.

Mais informações: www.ipt.br/noticia/430-patente_em_imas.htm.

Fonte: Agência Fapesp.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Biotecnologia produz aromas de frutas a partir de resíduos

Compostos podem ser usados pela indústria de alimentos e colocados em rações

Trabalho de doutorado desenvolvido na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) por Daniele Souza de Carvalho resultou na produção de aromas naturais de frutas por via biotecnológica, obtidos a partir de resíduos agroindustriais. Além disso, comprovou-se a sua viabilidade de uso por reduzir o tempo de processamento, o que deve diminuir também os custos. Esses aromas mostraram-se promissores para aplicação sobretudo na indústria de alimentos, podendo serem adicionados ao leite fermentado, iogurtes e rações animais, entre outras possibilidades. Do processamento da indústria cervejeira, foi aproveitado o bagaço de malte, que sobressaiu no experimento com um aroma puxado para o abacaxi, e do processamento da mandioca, a manipueira, um aroma puxado para o morango.

Daniele, que é química de alimentos, expõe que o tempo de processamento foi encurtado para um dia, em oposição às 72 a 96 horas que em geral demandariam pelos processos convencionais para obtenção deste composto. Isso porque, se o microrganismo fosse colocado direto no meio, teria que passar por uma fase de adaptação, que envolve a curva de crescimento normal. Ela explica que ativou o microrganismo em meio convencional e, após 24 horas, foi adicionado no resíduo, desenvolvendo a produção máxima desse composto em 24 horas de fermentação.

Os achados já apontam que é possível beneficiar diferentes setores da indústria, salienta a autora, principalmente com a diminuição dos custos, já que os processos biotecnológicos exigem, em geral, um longo tempo de fermentação e têm um substrato caro. Por reunir essas características, Daniele pensou em utilizar resíduos como substrato para o processo fermentativo. “Sem fazer a etapa de pré-inóculo (quando adiciona-se o microrganismo ao meio), o microrganismo teria que passar pela fase de adaptação, entretanto, com o auxílio da etapa do pré-inóculo, ele já estaria com todo o aporte enzimático ativo e começaria a produzir os compostos de aroma.”

Na tese, orientada pela docente da FEA Gláucia Maria Pastore, quando comparado o extrato de malte, que seria o meio sintético comum de se usar, com o resíduo de bagaço de malte, ambos apresentaram a mesma performance. “Tivemos a visita de um aromista, que ficou encantado com o produto oriundo do extrato fermentado. O aromista já trabalha com a possibilidade de saltar a etapa da purificação”, aborda Daniele, outra desvantagem do processo biotecnológico. “Assim chegaremos mais perto da escala industrial.”

O éster, objeto de estudo, foi o hexanoato de etila, o qual possui um intenso aroma frutal. A linhagem, que é o microrganismo (no caso o Neurospora sp.), foi isolado de uma massa de mandioca proveniente do Estado do Maranhão, por ser muito recorrente naquela biota, ao passo que os resíduos agroindustriais partiram de indústrias do interior do Estado de São Paulo.

Da manipueira (uma espécie de líquido tóxico originado no processamento da mandioca, que surge na prensagem da massa da raiz da mandioca), sobressaiu um aroma de morango e, do bagaço de malte, um aroma de abacaxi. Isso em grande parte ocorre devido às diferentes concentrações obtidas e a outros compostos formados. Na literatura, o hexanoato de etila tanto pode ser descrito como aroma de abacaxi quanto de banana, maçã, morango e pêssego. Ora pode assumir a característica de uma fruta, ora de outra. “No nosso caso, conseguimos que o buquê geral dos extratos fosse diferenciado”, informa a pesquisadora.

Aplicações
Normalmente, o bagaço de malte serve como ração animal, seu principal destino. Aqui ele serviu para alimentar o microrganismo responsável por produzir o aroma. Na verdade, esclarece a doutoranda, vão se esgotando os seus compostos – as macromoléculas, os carboidratos, os lipídios e as proteínas – e, por mecanismos secundários, produz-se o aroma.

Em países como a China e o Japão, por exemplo, o hexanoato de etila é adicionado em bebidas como os saquês e licores. Nos dois países, são consumidas, no total, mais de duas mil toneladas do produto por ano, que ainda pode estar presente nas balas, geleias, perfumes e numa série de compostos nos quais se almeja o aroma frutal.

Na tese, o bagaço de malte foi escolhido pelo fato de ser o extrato de malte, o melhor meio sintético onde se produz maior quantidade de hexanoato de etila, já a manipueira porque já é muito estudada no Laboratório de Bioaromas e Compostos Bioativos da FEA para a produção de biossurfactantes, compostos de origem microbiana. Como estava praticamente disponível, conta a autora, tentou-se empregá-la não só para a produção de biomassa, o que já é realizado em alguns estudos no laboratório, mas também para a produção de hexanoato.

Daniele e Gláucia Pastore já festejam os bons resultados e acabam de entrar com um pedido de patente – junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) – para proteger o processo de obtenção de aroma. Não havia pesquisa semelhante empregando-se o hexanoato de etila. Falta agora, de acordo com a química de alimentos, se debruçar mais sobre a área de purificação e de ampliação de escala, quiçá usando o microrganismo liofilizado, que aceleraria o processo, já que eliminaria a etapa de pré-inóculo.

Esse estudo tem a seu favor o fato de ser conduzido num país de base agrícola, com uma grande carga de resíduo agroindustrial capaz de poluir muito o meio ambiente. “Com a nossa pesquisa, abrimos um leque para futuras investigações com vistas a ampliar os seus usos e diminuir o impacto ambiental, no momento em que estamos reduzindo a carga orgânica dos compostos que estão sendo utilizados pelos microrganismos, além de agregar valor aos resíduos”, realça Daniele.

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Na opinião de Gláucia Pastore, a sua orientada deu uma clara demonstração de que é factível aplicar conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico na produção de compostos de importante valor agregado. Além de serem valiosos para a saúde e bem-estar da população, através da agroindústria de alimentos, geram subprodutos que seriam mal aproveitados – como substâncias ou produtos de baixo valor –, descartados inadequadamente em termos de segurança ambiental. “A aplicação da C&T como foi feita nesse trabalho, com a produção de aromas naturais a partir de substratos, mostrou-se altamente estimulante.”

Dia a dia
Há algumas décadas, o Laboratório de Bioaromas e Compostos Bioativos da FEA vem se dedicando aos subprodutos da agroindústria brasileira: de cana-de-açúcar, de café, de soja e de cerveja, entre outros. A resposta disso é simples. Existe mundialmente uma preocupação com a biomassa, o quanto dela poderá ser transformado ou biotransformado. “O Brasil, nesse quesito, tem uma série de substratos muito destacados dentro das diversas cadeias alimentares, contudo sem aplicação nobre. Utilizam-se subprodutos como ração ou para geração de energia”, ensina Gláucia Pastore.

Ocorre que este material tem potencial de trazer um valor agregado muito alto. São subprodutos para a indústria farmacêutica, aditivos para a indústria de alimentos ou substratos para serem transformados via biotecnologia. “Então o mundo se depara hoje com isso, e o nosso país começa a pensar nesta direção. A ideia foi localizar esses subprodutos para ver o que gerariam como valor agregado elevado e quais poderiam ser transformados em aromas”, relata a docente.

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Conforme ela, têm sido testados vários subprodutos. Da cadeia do trigo, pesquisaram-se o farelo de trigo e o farelo de arroz. Prosseguiu-se testando, trabalho que envolveu a inoculação de microrganismos, potenciais produtores de aroma de fruta. O próximo passo foi observar o que ia acontecendo. Chegou-se a um substrato muito mal aproveitado e que sequer se desconfiava disso. “Como já estava disponível e tinha uma alta carga de açúcar e proteína, notava-se que era totalmente desperdiçado. Era um resíduo da indústria da cerveja, aquela cevada transformada que seria praticamente jogada ou empregada na alimentação do gado”, descreve.

Daniele investigou os resíduos, avaliando a sua viabilidade. Aproveitou para verificar o que continham e foram inoculados alguns microrganismos produtores de aroma. O resultado foi muito bom: conseguiu-se a produção de aromas via biotecnológica – os aromas naturais de morango e de abacaxi, sem ter morango e sem ter abacaxi. O trabalho foi efetuado dentro da linha de pesquisa “Obtenção de ingredientes em compostos bioativos de produtos oriundos de subprodutos da agroindústria brasileira”, dirigida por Gláucia Pastore.

Surgiram inclusive as primeiras conversas com as indústrias de aromas e de leite, que pretendem conceber produtos aromatizados naturalmente. Especula-se o seu emprego em iogurtes e leites fermentados. “Pretendemos também auxiliar a indústria de ração, já que o cheiro de seus produtos é um item a ser reconsiderado, por não ser nada agradável”, comenta a orientadora. Como a produção de aroma frutal por microrganismos é considerada natural pela legislação, este apelo vem bem ao encontro da crescente demanda por produtos mais saudáveis.

Publicação
Tese: “Produção de aroma frutal por linhagens de Neurospora sp. em meios sintéticos e resíduos agroindustriais”
Autora: Daniele Souza de Carvalho
Orientadora: Gláucia Maria Pastore
Unidade: Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA)
Financiamento: Capes

Fonte: Jornal da Unicamp.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

UFU comemora Ano Internacional da Química

O Instituto de Química da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) vai celebrar a partir desta terça-feira, dia 29, o Ano Internacional da Química. Serão quatro dias de palestras, minicurso, apresentação de painéis, visitas técnicas, mesa-redonda e oficina abordando temas como os avanços da ciência na área, a formação de professores de Química, e divulgação da ciência.

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Wagner Batista de Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Rede Mineira de Química abrirá o ciclo de palestras. O evento, intitulado "2011 - Ano Internacional da Química: A Química em nossas vidas", acontece no bloco 5 “O”, no Campus Santa Mônica e terá a participação de representantes da UFU e de outras sete instituições. A abertura será às 19 horas. Também faz parte da programação a mostra de materiais no museu da Ciência com Diversão e Arte (DICA/UFU), no bloco 3E.

Veja aqui a programação completa.

O objetivo é celebrar as contribuições da química para o bem-estar da humanidade, já que as transformações químicas estão presentes na produção de alimentos, na medicina, nos combustíveis e em inúmeros produtos manufaturados e naturais.

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A programação do Ano Internacional da Química também será inserida nas atividades da Década da Educação e do Desenvolvimento Sustentável (2005-2014), estabelecida pela UNESCO. Além disso, no ano de 2011 comemora-se o 100º aniversário do Prêmio Nobel em Química concedido a Marie Sklodowska Curie, a Madame Curie, o que, de acordo com os organizadores, motivará uma celebração da contribuição das mulheres à ciência.

Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (34) 3239-4103 e no endereço www.aiq.iq.ufu.br.

Fonte: Diretoria de Comunicação Social da UFU.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Google abandona planos de produzir energia renovável barata

O Google começou pesquisar sobre tecnologia que reduziria o preço da energia renovável em 2007,em especial à tecnologia de energia solar. Foto: Jóvenes Verdes

O Google abandonou um projeto ambicioso para produzir energia renovável a preços inferiores aos do carvão, em mais um passo nos esforços do executivo-chefe, Larry Page, para concentrar os esforços do gigante da internet em um número menor de projetos.

A empresa anunciou o cancelamento de sete projetos, entre os quais o da energia renovável mais barata que o carvão e o Knol, uma enciclopédia on-line semelhante à Wikipédia.

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Os planos, anunciados pelo Google no blog da empresa, representam a terceira etapa na “faxina geral” que a companhia vem promovendo desde que Page assumiu como executivo-chefe, em abril.

As mudanças surgem em um momento no qual o Google enfrenta forte concorrência na computação móvel e em redes sociais, de parte da Apple e do Facebook, e depois que investidores se queixaram da alta dos gastos na maior companhia mundial de buscas na internet.

“Para recapitular, estamos em meio a um processo de cancelamento de certos produtos que não tiveram o impacto esperado, integração de outros a esforços mais amplos e encerramento de alguns projetos que nos ajudaram a divisar um caminho diferente”, escreveu Urs Holzle, vice-presidente sênior de operações do Google no blog da empresa.

A corporação afirmou que acredita haver outras instituições em melhor condição de conduzir os esforços de desenvolvimento da energia renovável a “um novo patamar”.

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O Google começou a realizar investimentos e a fazer pesquisas sobre tecnologia que reduziria o preço da energia renovável em 2007, com especial atenção à tecnologia de energia solar.

Em 2009, Bill Weihl, o “czar da energia ecológica” na empresa, justificou à Reuters que esperava demonstrar em poucos anos uma tecnologia funcional capaz de produzir energia renovável a preço inferior ao do carvão.

“As chances são de 50/50, eu diria”, afirmou Weihl em 2009. “Dentro de três anos, teremos instalações gerando múltiplos megawatts em operação.”

Um porta-voz do Google informou que Weihl deixou a empresa no começo deste mês.

Fonte: Envolverde.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Dissertação associa queda de idoso a cochilos diurnos

Fisioterapeuta vê relação entre ocorrências e sintomas de insônia noturna na terceira idade

Aquele cochilo que muitos idosos dão durante o dia merece um olhar mais cuidadoso por parte dos profissionais de saúde, principalmente quanto à frequência e duração do hábito. O alerta é do fisioterapeuta Alexandre Alves Pereira, que encontrou uma relação significativa entre sintomas de insônia, cochilo diurno e ocorrência de quedas em idosos, em pesquisa realizada na Faculdade de Ciências Médicas (FCM). O estudo cruzou informações do banco de dados do Estudo Fibra (Fragilidade em Idosos Brasileiros), por meio do qual foram entrevistados 689 idosos em Campinas.

A ocorrência de quedas nesta população atingiu 26,2%, sendo que 11,87% sofreram duas ou mais quedas. Segundo Pereira, levando em consideração as consequências físicas e psicológicas que o episódio ocasiona em pessoas de mais idade, a porcentagem deve ser observada com atenção. “As quedas representam um grave problema de saúde pública na população idosa, configurando uma síndrome clínica com impacto significativo sobre a qualidade de vida”, destaca Pereira, lembrando que entre as complicações está o risco de fraturas, além do medo de cair novamente, bem como o risco de internação e morte.

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Alexandre Pereira explica ainda que são vários os fatores que levam o idoso a cair. Por isso, são relevantes as pesquisas cujo foco são aspectos que podem estar relacionados a esta ocorrência e, assim, ampliar as estratégias de prevenção. Neste sentido, o estudo indica a necessidade de avaliação mais criteriosa da qualidade do sono e suas consequências para o idoso, pois podem revelar piora na condição de saúde e declínio funcional. “É comum ouvirmos a afirmação de que o cochilo diurno na velhice é corriqueiro, pois a prevalência é alta. Mas, a idade avançada não é condição única para o surgimento do cochilo. Ele pode ser motivado por algum quadro de enfermidade, por exemplo. Neste sentido, a pesquisa sugere que este tipo de ocorrência deve ser investigado, principalmente, porque mesmo as quedas também podem indicar outro problema”, reafirma.

A pesquisa realizada pelo fisioterapeuta buscou o número de idosos que respondia positivamente a uma das questões que evidenciam a presença de sintomas de insônia. São elas: dificuldade ao iniciar o sono, dificuldade em manter o sono, despertar precocemente ou dormir mal durante a noite. O estudo buscou ainda identificar os idosos que respondiam afirmativamente sobre o costume de cochilar durante o dia e aqueles que apresentaram quedas nos últimos 12 meses.

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Na sequência, o fisioterapeuta fez o cruzamento de todos os dados e indicou as associações, que segundo ele, são pouco exploradas na literatura científica. “Acredito que a pesquisa abre um caminho para se avaliar o impacto das intervenções nas queixas e hábitos relativos ao sono na velhice visando à prevenção de eventos adversos”, afirma.

Publicação
Dissertação: “Relação entre atividade física, capacidade funcional, velocidade da marcha, sintomas de insônia, cochilo diurno, sintomas depressivos e ocorrência de quedas em idosos residentes na comunidade”
Autor: Alexandre Alves Pereira
Orientador: Maria Filomena Ceolim
Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)
Financiamento: CNPq e CAPES

Fonte: Jornal da Unicamp.



 
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